Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

No tempo em que nos jornais havia espaço para o jazz (2)

 

 

Vasos Comunicantes (1)

 

Ultimamente mais afeiçoado à música para televisão e cinema, em particular para filmes relevantes de Spike Lee, o trompetista Terence Blanchard parece ter aproveitado da melhor maneira o porfiado tecer de roupagens instrumentais para a construção de linhas temáticas insinuantes  – e o certo é que Wandering Moon é bem demonstrativo de um notório salto qualitativo na sua obra discográfica.

 

Gravado na companhia de membros do seu grupo itinerante habitual, aos quais acrescentou, como convidados especiais, dois pesos pesados em forma impressionante  – Dave Holland e Branford Marsalis –,  este álbum é uma relativa surpresa para quem há muito não ouvia Blanchard neste contexto jazzístico puro.

 

Por um lado, porque ele se afasta resolutamente do óbvio e se aventura na criação de um álbum conceptual  (vantagem do trabalho para bandas sonoras?),  com peças de escrita ambiciosa e boa arquitectura instrumental;  e, por outro lado, porque aproveita da melhor maneira o enorme talento dos músicos participantes.

Neste campo, o drive de Eric Harland (bateria)  e, sobretudo, a excepcional contribuição do venezuelano Edward Simon (piano)  – sem ignorar o brilhantismo técnico e a capacidade inventiva do próprio trompetista –  são colocados ao serviço de um repertório em geral estimulante, com relevo para dois opus de grande fôlego: Joe & O e If I Could, I Would.

 

Menos arrojado do ponto de vista formal, o mais recente álbum  [2000]  de outro talentoso trompetista de Nova Orleães, Nicholas Payton, representa, mesmo assim, um passo em frente na clara e progressiva recusa de ideias repisadas.

De facto, seria surdez doentia persistir na ignorância de uma renovada postura criativa e continuar a ouvir apenas no estilo do trompetista o reflexo condicionado  (naturalmente verificável, aqui e ali)  de modelos como o segundo grande quinteto de Miles ou os primeiros  (ainda e sempre mais estimulantes)  discos de Marsalis do começo da década de 80.

 

Pelo contrário, abstraindo-nos mesmo da relativa «inutilidade» da utilização do cravo ou da celesta, basta avaliar sem preconceitos a existência de elementos de forte renovação tímbrica para percebermos estar perante algo de esforçadamente novo em relação ao que já nos havia habituado a obra de Payton.

Ouçam-se, ainda, as deambulações através das quais se define uma valsa swingante como Beyond The Stars, atente-se no humor latente em Captain Crunch (Meets the Cereal Killer) ou admire-se a fulgurância harmónica, o intenso cromatismo e as derivações rítmicas de uma peça tão excepcional como Blacker Black’s Revenge --  e logo parecerá evidente a atenção que Nicholas Payton está a prestar ao que se passa à sua volta.

UMA LÓGICA TRANSIÇÃO

Não me parece despropositado falar-vos agora de Greg Osby quando, a meio deste escrito, pretendo fazer a transição de um jazz claramente enraizado do ponto de vista estético nos modelos clássicos norte-americanos para outros espécimes jazzísticos formalmente mais heterodoxos.

 

Acontece que, sem deixar de se manter fiel às suas raízes culturais, Osby se confirma aqui, no seu último [1999] álbum The Invisible Hand, um dos músicos afro-americanos mais abertos, originais e imprevisíveis das últimas duas décadas   –  no caso concreto, através da forma inigualável com que subverte material temático há muito consagrado no jazz.

 

É o caso dos clássicos Indiana, Nature Boy ou, sobretudo, a velhinha Jitterburg Waltz – sendo esta ainda servida pela inteligente apropriação, com propósitos estéticos, de dispositivos de ordem tecnológica como a multipista –,  cuja abordagem e desconstrução, plenas de invenção e frescura, resultam em uma das mais absorventes experiências musicais dos últimos tempos.  Tudo isto reforçado pela consistência de originais como Ashes ou Sanctus, saídos da pena de dois veteranos incontornáveis como Andrew Hill e Jim Hall, convidados de luxo, ou pela singeleza de dois duetos impressionistas  (The Watcher 1 e 2),  entre saxofonista e pianista.

 

Passando agora a duas peças discográficas que nos chegam de bem mais perto, julgo ser aqui que o título desta crónica adquire ainda maior justificação.  Na realidade, no primeiro caso –  o álbum Kreutzberg Park East, da responsabilidade de Gebhard Ullmann –,  comprova-se a existência, no jazz de hoje, de claras pontes atravessadas nos dois sentidos por músicos europeus e norte-americanos, já que o saxofonista e clarinetista alemão reincidiu no convite a algumas personalidades da cena downtown nova-iorquina para a formação do seu quarteto: Ellery Eskelin (sax-tenor), Drew Gress (contrabaixo) e Phil Haynes (bateria).

 

O resultado é um álbum brilhante, inequivocamente-jazz, pelo qual estão polvilhadas algumas reavaliações de componentes tão características como um certo balanço swingado (Blaues Lied, Those 4 R),  a evocação meio transfigurada dos blues (Kreuzberg Park)  mas também, em geral, o estilhaçar da linearidade formal em improvisações livres sobre esquemas e estruturas inventadas em tempo real.

 

Bem mais pensada e reflectida em termos de composição prévia  – mas não alheia à postura free das suas inúmeras partes improvisadas –,  é uma obra em forma de suite que o trompetista austríaco Franz Koglmann gravou para a sua própria editora Between The Lines, agora [2000]  bem-vinda em distribuição nacional.

Obra discográfica inequivocamente europeia, cuja inspiração reside em parte substancial no romance Les Enfants Térribles de Jean Cocteau, esta peça de Koglmann é um conjunto de «cenas musicais» antecedidas de um prólogo.

 

Para além de constituir fonte de transmutações musicais como a que é corporizada no próprio tratamento herético de Make Believe (Jerome Kern), o álbum apresenta um conjunto de peças de carácter evocativo, ultrapassando porventura as próprias associações e analogias de Cocteau na alternância entre uma surpreendente ressonância do cinema negro dos anos 50, em Rue Montmartre, e o surpreendente mimetismo ellingtoneano de Interlude –  sempre inserindo nos tempos e nos modos que a compõem uma frequente pulverização dos centros tonais e até mesmo alguns afloramentos do free de extracção europeia que lhe conferem especial carácter.

Imprescindíveis para o notável êxito da empresa são, sem dúvida, as participações do histórico britânico Tony Coe (clarinetes, saxofone-tenor),  do francês Tom Varner (trompa),  do norte-americano Brad Shepik (guitarra)  e do austríaco Peter Herbert (contrabaixo).

___________

 

(1) (in DNmais, suplemento do Diário de Notícias, 13.05.2000)

 


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